Para um mundo em ebulição tecnológica, letramento digital!

Para um mundo em ebulição tecnológica, letramento digital!

Por Betina von Staa*

Esses últimos anos foram realmente estonteantes, no que diz respeito à inovação tecnológica e ao seu impacto nas nossas vidas. Em 2023, conhecemos a IA generativa, que gera textos em formatos escritos e orais, além de imagens e vídeos, sons e músicas parecem ter sido criados por seres humanos. Em 2024, muitos países chegaram à conclusão que os aplicativos de celulares tiram a atenção dos alunos, geram vício, causam ansiedade e outros problemas para a saúde mental, algo que já vinha sendo alertado por especialistas há tempos. E começamos 2025 com a Meta anunciando que, assim como o X, não faria mais mediação de conteúdos políticos, entre outros, e com o governo federal brasileiro proibindo celulares sem uso pedagógico nas escolas, inclusive, no recreio.

Em resumo, estamos nos confrontando diariamente com inovação tecnológica, seu poder e riscos, tudo ao mesmo tempo agora junto e misturado, sem que o cidadão comum tenha tempo para compreender e digerir os seus impactos sobre a sua vida cotidiana, empregabilidade, formação de opinião e poder político. Não é pouco. Não é simples. E está muito rápido!

Não podemos esperar que cada cidadão saiba que os aplicativos de redes sociais têm um mecanismo de impulsionamento de conteúdo, em função do interesse que gera (e não da qualidade ou da veracidade da informação) e que muitas mídias são calibradas para deixar as pessoas sempre conectadas as elas (vício), provocando perda de foco, atenção e ansiedade, entre muitos outros sintomas.

O cidadão comum também não consegue perceber que só recebe informações que lhe interessam, tendo, cada vez mais, a certeza de que está suas suposições sejam confirmadas, o que produz efeitos de reafirmação de falsas conclusões e reforço da “polarização” social e política. Os algoritmos não propõem questionamentos e reflexões, eles funcionam como uma zona de conforto de retroalimentação de um conhecimento raso e sem fundamento científico.

Também não podemos achar que qualquer pessoa saberá distinguir conteúdos feitos por IA e por humanos ou que reflita filosoficamente sobre os perigos inerentes a este avanço tecnológico.

Consequentemente, não podemos esperar que os pais consigam, em geral, orientar seus filhos sobre uso seguro das redes sociais, do celular, da exposição a telas. Afinal, ninguém recebeu essa orientação. As escolas também não têm profissionais que receberam formação para as novas tecnologias. Mas conseguem, sim, buscar informação e profissionais que entendem do assunto para compreender os fenômenos emergentes e orientar alunos de todas as idades a respeito do funcionamento. Alertar sobre os riscos e as infinitas possibilidades abertas pela tecnologia é também uma funcionalidade da escola. Ou seja, as instituições de ensino conseguem promover o que se chama de “letramento digital”.

Por mais que os celulares tenham sido proibidos nas escolas, as crianças e os jovens que tiverem acesso a eles e a seus aplicativos continuarão usando os dispositivos fora do horário escolar. As escolas precisam tomar para si a tarefa de mostrar aos alunos como funcionam as tecnologias, visto que qualquer cidadão precisa desse conhecimento para conseguir entender se está sendo manipulado, se as leis do nosso país são justas, se estamos tendo acesso à tecnologia de ponta para poder participar do movimento vertiginoso de inovação global, e não ser apenas consumidor de tecnologias que vêm de fora.

Letramento digital envolve conhecer as tecnologias, aprender a programar (para saber como ela é criada), identificar comportamentos de risco ao manusear a tecnologia, compreender o poder da tecnologia e refletir criticamente sobre ela. Não é uma opção.

E o que a escola pode fazer? Há atividades que podem ser propostas a alunos de todas as idades, como por exemplo:

1) Descobrir se o robô é mais inteligente do que nós: para cada faixa etária, criar situações que envolvem o uso da tecnologia e que revelem que, no final, sempre houve algum humano que planejou aquele robô (ou algoritmo)

2) Refletir sobre nosso comportamento diante da tecnologia: quanto tempo passamos conectados? O que fazemos a partir dessa conexão? Trouxe algum benefício ou aprendizado? Valeu a pena?

3) Compreender os novos conceitos tecnológicos que nos cercam: algoritmo, impulsionamento, fake news (que é diferente de viés), engajamento, etc, junto com uma tópicos de reflexão a respeito de liberdade de expressão, democracia, importância do diálogo, saúde mental, entre outros.

4) Aprender programação: por mais que se diga que a IA vai programar, ainda serão os humanos que irão configurar a IA e todo cidadão tem que compreender a diferença entre pensamento computacional e linguagem de máquina e pensamento e linguagem humanos.

5) Criar produtos tecnológicos: usar tecnologia para criar histórias, blogs, revistas, aplicativos, robôs ou o que a imaginação do aluno permitir inventar, sabendo que podemos fazer parte ativa do mundo tecnológico e que não precisamos ser consumido por ele.

Betina von Staa, doutora em linguística aplicada, coordenadora do CensoEAD.BR da Associação Brasileira de Educação a Distância – ABED e consultora da D2L

*Betina von Staa é Educadora, Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Análise do Discurso e fundadora da plataforma educacional, Canteiro Criativo, e da BvStaa, consultoria para o desenvolvimento de aprendizagem híbrida e digital.

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